Aos 18 anos, pensei ter atingido a sabedoria.
Era baixinha, tinha sardas e tirei-lhe o cabaço na primeira oportunidade.
Não ficou por isso.
A lei falou mais forte. E tive que me casar, prematuro como uma ejaculação precoce.
Nem tudo foram rosas, no princípio.
Nos pulsos ainda me ardem as cicatrizes de três malsucedidas tentativas de suicídio.
Mas eu não posso ver sangue. Sobretudo, quando meu.
Assim decidi continuar vivo.
Principalmente porque o mundo estava cheio delas.
De Marlenes. De Ivones. De Déboras. De Luísas. De Sônias. De Olgas. De Sandras. De Edites. De Rosas. De Evas. De Anas. De Mônicas. De Helenas. De Rutes. De Raquéis. De Albertos. De Carlos. De Júniors. De... (ihh, acho que acabo de cometer um ato falho). De Joanas. De Veras.
De Normas.
(Leminsk- Primeiro parágrafo do livro: Agora é que elas; lembrando que o livro seria dedicado “ao delito de deixar o dito pelo não dito)
sábado, 30 de janeiro de 2010
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Andar e pensar um pouco
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
sem deixar nenhum traço?
(Leminsk)
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
sem deixar nenhum traço?
(Leminsk)
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Deste-me inocentemete a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas compahia.Sei que tua mão não me largaria, se soubesse.
Como te compensar? Pelo menos também usa-me, usa-me pelo menos como túneo escuro - e quando atravessares minha escuridão te encontrarás do outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se atravessarei, mas contigo. Pelo menos não está sozinho, como ontem eu estava, e ontem eu só rezava para poder pelo menos sair viva de dentro. E não apenas viva.
(Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.)
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
batente
apanhando
sangre negro
atirado sobre o
fundo branco
assassinato sem primeiro
grau
ignorância jogada fora
lembrança de jornal
papel
cadáver exposto
cremado
em um olhar fulminante
agora sinto
a existência
de minhas
mãos vazias
(Baobá)
apanhando
sangre negro
atirado sobre o
fundo branco
assassinato sem primeiro
grau
ignorância jogada fora
lembrança de jornal
papel
cadáver exposto
cremado
em um olhar fulminante
agora sinto
a existência
de minhas
mãos vazias
(Baobá)
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Poesia para ver e ouvir
A poesia não é literatura. Ela está muito mais próxima das artes plásticas e da música do que da ficção, embora seja feita com palavras. A diferença é que na poesia as palavras têm uma função diferente da que têm na prosa.
De repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que te vi
o dia em que me viste
(Leminsk)
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domingo, 10 de janeiro de 2010
Essa música Roberto Carlos vez para o Caetano Veloso quando ele estava no exílio em Londres.
Lembro de minha amiga/vizinha Luciana tocando essa música no violão quando eu era criança. Sentia a melancolia da melodia e da letra e adorava, parecia me transportar para outro lugar. Me encher de sentido. Já gostava do Caetano. Até nas músicas que nem sabia que era dele eu gostava e pronto, depois é que eu ia descobrir: "Ah, é do Caetano". Isso se repetiu muitas vezes, repetindo a frase sempre com menos espanto.
Ás vezes eu me olho no espelho e me digo que venho de índios e negro, gente escura e me sinto como uma árvore, me sinto raiz, mandioca saindo da terra, logo em seguida retorna ao limbo da indefinicão. Depois me lembro que não sou nada, que sou uma pessoa com ódio, quase Severina Podre, lunática, enluarada, aluada, em estado de porre sem nunca ter bebido.
(As mulheres de Tijucopapo - Marilene Felinto)
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paradoxo
me esforço ao ócio
trabalho duro
forçado
com rede e coco gelado
e quando finalmente
consigo
festejando em sono largo
avisaram:
as férias tinham acabado
(Baobá)
me esforço ao ócio
trabalho duro
forçado
com rede e coco gelado
e quando finalmente
consigo
festejando em sono largo
avisaram:
as férias tinham acabado
(Baobá)
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Viagem de férias...

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...
(Terra; Caetano Veloso; música feita durante sua prisão, quando ele viu em uma revista, as primeiras fotografias da terra tirada da lua).
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Se não fosse isso
era menos
não fosse tanto
e era quase
(Leminski)
era menos
não fosse tanto
e era quase
(Leminski)
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A fantástica fábrica do fantástico
O fantástico, que nos empurrava paranóia catastróficas de fim dos tempos nas últimas décadas (que pelo visto resistiram as previsões mais Mãe Dinazisticas), futilidades públicas, e as famosas "Garotas do Fantástico", não soube envelhecer, alias, eles poderiam nem ter tentado. Com a Internet garimpando as pessoas, além de programas de humor como o Pânico na TV que arranca boa parte dos seu tradicional público, o Fantástico que parecia descontraído, evocando o termino do descanso do fim de semana, parece ter caducado. O desespero da produção e dos apresentadores é visível. Fazem chamada no inervalo da novela das oito, sorrindo (quanto mais dentes amostra, mais baixo está o IBOPE) anunciam atrações imperdíveis que ninguém quer ver.
O mais interessante é a inversão de valores, vamos assim dizer, da temática das reportagens. Se antes o paranormal entortava garfos para arrepios e comentários da semana que viria, agora existe um especialista eletrônico que desmente os mistérios dos vídeos da internet. Uma disputa implícita, e irônica de quem tá com a verdade. Se você chamou a família e enviou para os amigos aquele extra terrestres no youtube, o Fantástico vem e diz que são bonecos plástico que são animados por uma tecnologia caseira. Logo quem faz isso, eu que passei parte de minha infância rivalizando o nosso querido Bixo Papão e o ET de Varginha (que eles garantiam que existia) em meus pesadelos.
O mais espantoso mesmo é a estética inovadora do programa. Um dia os apresentadores desaparecem de vez (o que não seria uma má ideia). Uma tela é utilizada de forma manual para indicar coisas inútes, como: clicar com o dedo na próxima atração indicada no painel. Uma obvia tentativa de se aproximar da linguagem da internet, mais ingênuos do que eu com medo de disco voador. Bom, como Pedro Bial, que salvava alguma coisa com seu charme, não ta mais por lá, eles poderiam pelo menos deixar esse Tadeu Schimdt como apresentador-mor, que realmente é ótimo. E claro, tirar aquele terrível Zeca Camargo faria bem em quem se distrair e deixar a tv ligada no horário. Não indicaria exterminar o programa que a globo não tem muito senso de realidade, e nem a gente, ou alguns, que ainda assistem a "sua revista eletrônica semanal".
(Baobá)
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010
"Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens".
(Livro das Evidências)
(Livro das Evidências)
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
"... A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (...) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma..."
(lewis Carol - Alice no País das Maravilhas)
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sábado, 2 de janeiro de 2010
Ver e não ver
"Continuou melhorando, visualmente, nas semanas seguintes, em geral quando ficava livre para determinar seu próprio ritmo. Fez tudo para viver a vida de um homem de visão, mas também ficou mais atormentado nesse período. Expressava ocasionalmente o temor de ter de jogar a bengala fora e sair, atravessar as ruas, só com a visão; e, certa vez, falou do medo de que "tivessem a expectativa" de que ele viesse a dirigir e conseguisse um trabalho inteiramente "baseado na visão". Este foi, portanto, um tempo de muita luta e sucessos reais _ mas alcançados, sentia-se, a um custo psicológico, um custo de profundo esforço e cisões interiores."
(Trecho do livro: Um Antropólogo em Marte do neurologista Oliver Sacks em que conta a história de um homem que após mais de 30 sem enxergar volta a ver).
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sábado, 26 de dezembro de 2009
Não adianta
Não adianta,
Não adianta nada ver a banda,
Tocando “A Banda” em frente da varanda,
Não adianta o mar,
E nem a sua dor.
Não adianta,
Não adianta o bonde, a esperança,
E nem voltar um dia a ser criança,
O sonho acabou,
E o que adiantou?
Não tenho pressa,
Mas tenho um preço,
E todos tem um preço,
E tenho um canto,
Um velho endereço,
O resto é com vocês,
O resto não tem vez.
O que importa,
É que já não me importa, o que importa,
É que ninguém bateu em minha porta,
É que ninguém morreu,
ninguém morreu por mim.
Não quero nada,
Não deixo nada, que não tenho nada,
Só tenho o que me falta e o que me basta,
No mais é ficar só,
Eu quero ficar só.
Não adianta,
Não adianta, que não adianta,
Não é preciso, que não é preciso,
Então pra que chorar?
Então pra que chorar?
Quem está no fogo, está pra se queimar,
Então pra que chorar?
(Sérgio Sampaio)
Não adianta nada ver a banda,
Tocando “A Banda” em frente da varanda,
Não adianta o mar,
E nem a sua dor.
Não adianta,
Não adianta o bonde, a esperança,
E nem voltar um dia a ser criança,
O sonho acabou,
E o que adiantou?
Não tenho pressa,
Mas tenho um preço,
E todos tem um preço,
E tenho um canto,
Um velho endereço,
O resto é com vocês,
O resto não tem vez.
O que importa,
É que já não me importa, o que importa,
É que ninguém bateu em minha porta,
É que ninguém morreu,
ninguém morreu por mim.
Não quero nada,
Não deixo nada, que não tenho nada,
Só tenho o que me falta e o que me basta,
No mais é ficar só,
Eu quero ficar só.
Não adianta,
Não adianta, que não adianta,
Não é preciso, que não é preciso,
Então pra que chorar?
Então pra que chorar?
Quem está no fogo, está pra se queimar,
Então pra que chorar?
(Sérgio Sampaio)
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Mais vida, menos carro
Todo rito de passagem é permeado por dor. Em nossa civilização judaico-cristã, essa dor aumenta quando nos defrontamos com a passagem deste para outro plano de vida diferente. E ela se amplia ainda mais quando se trata de uma vida jovem, cheia de sonhos, vontades de realizar, de construir, de mudar as coisas para melhor. O sentimento de dor se transforma em indignação quando essa perda se dá por falta de ação e/ou por omissão dos poderes constituídos.
No final da semana passada, a comunidade universitária perdeu um aluno em um desastre anunciado. Saía do campus da UFES em Goiabeiras e ao atravessar a antiga avenida Fernando Ferrari foi atropelado.
O vazio que fica n’alma de quem com ele conviveu pode ser no máximo imaginado. Para quem, como eu, só o conheceu em razão de seu trágico desastre, fica a angústia e a vontade se solidarizar com pais, parentes e amigos. E mais, enquanto membro da comunidade universitária, fica a necessidade de registrar nossa inquietação com crelação à forma como se dá a circulação de pessoas e veículos para quem transita em torno da ´rodovia´ Fernando Ferrari.
Objeto de estudos e projetos que duraram anos, as obras de modernização da antiga Avenida Fernando Ferrari obedeceram a princípios que são, no mínimo, não contemporâneos dos tempos de valorização da qualidade de vida urbana. Dentre esses princípios facilmente observados para quem circula pela região, alguns merecem destaque.
Primeiro, prioridade absoluta para o mais livre possível fluxo de veículos, e dentre esses, posição especial para o automóvel. Compare o contraste, caro leitor, entre a qualidade do pavimento das vias para veículos e a das calçadas para pedestres. Note os tempos que são dados para os veículos nos semáforos e os que são reservados para a travessia de pedestres.
Segundo, descaso para com a necessária integração entre o campus da Ufes e o bairro vizinho, Jardim da Penha. Da forma como foi ampliada, a Fernando Ferrari serve como uma barreira adicional a esta importante integração, já que Jardim da Penha é o mais imediato ponto de serviços para a comunidade universitária e local de moradia para muitos dessa comunidade.
Quando da concepção original da via que mais tarde se tornaria Av. Fernando Ferrari, essa servia como passagem para os poucos veículos de/para municípios no Norte do estado rumo a Vitória; para esparsos deslocamentos entre a cidade e o balneário de Camburi e o aeroporto. Manter essa mesma concepção de via de passagem com tudo o que aconteceu na região de Camburí e Goiabeiras (inclusive com a construção e consolidação do campus da UFES nos últimos 40 anos), é, no mínimo desrespeitoso.
Da forma como está, a ‘rodovia’ Fernando Ferrari desrespeita o legítimo direito por qualidade de vida para quem mora / trabalha / estuda / circula na região por onde ela passa. E pior, desrespeita a vida.
E esse desrespeito, lamentavelmente, agora tem uma vítima chamada Gabriel.
(Arlindo Villaschi;Professor de Economia da UFES; arlindo@villaschi.pro.br)
No final da semana passada, a comunidade universitária perdeu um aluno em um desastre anunciado. Saía do campus da UFES em Goiabeiras e ao atravessar a antiga avenida Fernando Ferrari foi atropelado.
O vazio que fica n’alma de quem com ele conviveu pode ser no máximo imaginado. Para quem, como eu, só o conheceu em razão de seu trágico desastre, fica a angústia e a vontade se solidarizar com pais, parentes e amigos. E mais, enquanto membro da comunidade universitária, fica a necessidade de registrar nossa inquietação com crelação à forma como se dá a circulação de pessoas e veículos para quem transita em torno da ´rodovia´ Fernando Ferrari.
Objeto de estudos e projetos que duraram anos, as obras de modernização da antiga Avenida Fernando Ferrari obedeceram a princípios que são, no mínimo, não contemporâneos dos tempos de valorização da qualidade de vida urbana. Dentre esses princípios facilmente observados para quem circula pela região, alguns merecem destaque.
Primeiro, prioridade absoluta para o mais livre possível fluxo de veículos, e dentre esses, posição especial para o automóvel. Compare o contraste, caro leitor, entre a qualidade do pavimento das vias para veículos e a das calçadas para pedestres. Note os tempos que são dados para os veículos nos semáforos e os que são reservados para a travessia de pedestres.
Segundo, descaso para com a necessária integração entre o campus da Ufes e o bairro vizinho, Jardim da Penha. Da forma como foi ampliada, a Fernando Ferrari serve como uma barreira adicional a esta importante integração, já que Jardim da Penha é o mais imediato ponto de serviços para a comunidade universitária e local de moradia para muitos dessa comunidade.
Quando da concepção original da via que mais tarde se tornaria Av. Fernando Ferrari, essa servia como passagem para os poucos veículos de/para municípios no Norte do estado rumo a Vitória; para esparsos deslocamentos entre a cidade e o balneário de Camburi e o aeroporto. Manter essa mesma concepção de via de passagem com tudo o que aconteceu na região de Camburí e Goiabeiras (inclusive com a construção e consolidação do campus da UFES nos últimos 40 anos), é, no mínimo desrespeitoso.
Da forma como está, a ‘rodovia’ Fernando Ferrari desrespeita o legítimo direito por qualidade de vida para quem mora / trabalha / estuda / circula na região por onde ela passa. E pior, desrespeita a vida.
E esse desrespeito, lamentavelmente, agora tem uma vítima chamada Gabriel.
(Arlindo Villaschi;Professor de Economia da UFES; arlindo@villaschi.pro.br)
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Parabólica
parado
parada
parabólica
para todas as vozes
muitos calos
poucos goles
cuspo tudo
no mundo
continuo
agora
parabólica
memória
de chegar
vai e volta
esquenta a lógica
no frio de rachar
parado
para
o ar
paro
de respirar
(Baobá)
parada
parabólica
para todas as vozes
muitos calos
poucos goles
cuspo tudo
no mundo
continuo
agora
parabólica
memória
de chegar
vai e volta
esquenta a lógica
no frio de rachar
parado
para
o ar
paro
de respirar
(Baobá)
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009
O ab(surdo) não h(ouvi)
Entra nos lugares, pede para sentar, levanta. Anda. Sai. As pessoas passam e suas carnes moles, suores. Você sente que seu corpo está cada vez mais seco e limpo. Seco limpo e sem brilho.
Atravessa a rua, sob o sol sal e desgosto e continua em linha reta. De certa forma é o absurdo que nos cabe. Continuar. Continuar , senta, levanta, late.
Não faz sentido moer a carne no asfalto, se jogar em frente ao carro. Nenhum sentido parar o taxi em meio ao engarrafamento, subir no parapeito da ponte e saltar aberto para o conforto do fim. Nem a espera do toque áspero da mão áspera de um futuro inexistente.
Não há busca de sentido no calor de um estofado.
Por isso, pela falta de sentido e vontade de absurdo, continuo (amos) em estado apático frente ao caos das seis da tarde (noite)
Atravessa a rua, sob o sol sal e desgosto e continua em linha reta. De certa forma é o absurdo que nos cabe. Continuar. Continuar , senta, levanta, late.
Não faz sentido moer a carne no asfalto, se jogar em frente ao carro. Nenhum sentido parar o taxi em meio ao engarrafamento, subir no parapeito da ponte e saltar aberto para o conforto do fim. Nem a espera do toque áspero da mão áspera de um futuro inexistente.
Não há busca de sentido no calor de um estofado.
Por isso, pela falta de sentido e vontade de absurdo, continuo (amos) em estado apático frente ao caos das seis da tarde (noite)
to be continued
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Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
(Livros - Caetano Veloso)
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou o que é muito pior por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
(Livros - Caetano Veloso)
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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
domingo, 6 de dezembro de 2009
A infinita complexidade das coisas
Pouco lia, em qualquer das preocupações. Mas no pouco que lia, tantas teorias me cansava de ver, contraditórias, igualmente assentes em razões desenvolvidas, todas elas igualmente prováveis e de acordo com uma certa escolha de fatos que tinha sempre o ar de ser os fatos todos. Se erguia dos livros os meus olhos cansados, ou se dos meus pensamentos desviava para o mundo exterior a minha perturbada atenção, só uma coisa eu via, desmentindo me toda a utilidade de ler e pensar, arrancando-me uma a uma todas as pétalas da idéia do esforço: a infinita complexidade das coisas, a imensa soma , a prolixa inatingibilidade dos próprios poucos fatos que se poderiam conceber precisos para o levantamento de uma ciência.
(Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego)
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O amor pede sua vontade
Vozes violentas
Perdidas no silêncio
Da boca
Abrigo do estalados das
Línguas
Brigando por espaço
Para serem invadidas
(Baobá)
Vozes violentas
Perdidas no silêncio
Da boca
Abrigo do estalados das
Línguas
Brigando por espaço
Para serem invadidas
(Baobá)
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Uma tarde
Sem depósito
Sem propósito
Nada além de uma tarde
De céu branco
E chuva branda
Tudo já foi dito
Desmanchando nos passos
Em tantas partes
De tanta gente
Que dos olhos desviei
O que lembrar
De histórias
Já usadas de sentidos?
Não tenho nem meu
Sono
Já dormido
Não ultrapasso o concreto
Que a chuva bate
Não evaporo em neblina fria
Essa tarde
A mais vivida de minha vida
Acompanhei o nada em sua estadia
(Baobá)
Sem depósito
Sem propósito
Nada além de uma tarde
De céu branco
E chuva branda
Tudo já foi dito
Desmanchando nos passos
Em tantas partes
De tanta gente
Que dos olhos desviei
O que lembrar
De histórias
Já usadas de sentidos?
Não tenho nem meu
Sono
Já dormido
Não ultrapasso o concreto
Que a chuva bate
Não evaporo em neblina fria
Essa tarde
A mais vivida de minha vida
Acompanhei o nada em sua estadia
(Baobá)
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