segunda-feira, 23 de novembro de 2009

É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la.

Não entrei na literatura para ser um escritor qualquer. Quero ser maior que Tolstói e Joyse - e acho que todo escritor tem de pensar assim, senão ele não produz nada. Ele tem que pensar em coisas grandes. Comecei a escrever porque queria revolucionar o romance, subverter a literatura, transformá-la em algo que ainda não existia, ofuscar os antepassados. Quero colocar tudo num livro, o mundo inteiro, minha vida inteira. Quero praticar a obra de arte total que imaginava Richard Wagner. Escrevo livros impossíveis. Se me ocorrer uma história que me sinto incapaz de formular, é aí que começo um livro. Quero escrever sobre o que não entendo. É assim que vou contornando os problemas, e chamam isso de estilo experimental. Na verdade, é uma atitude de enfrentamento. E de liberdade. É por isso que não creio na profundidade. O que existem são infinitas superfícies superpostas. Quando você se aprofunda demais em um asssuto, acaba saindo do outro lado, de mãos abanando. Escrever é um ato impossível, porque tudo que interessa vem antes das palavras, como as intenções, os desejos, a loucura. Os poetas são maiores porque conseguem transferir essas coisas inominavéis para as palavras. Mas escrever também é um ofício, como o de carpinteiro. É preciso conhecer a técnica, para abandoná-la. Todo grande livro é uma reflexão profundo sobre a arte de escrever. Cada livro meu tem de ser um mundo.
(António Lobo Antunes - escritor português em entrevista a revista Época)
O escritor precisa de dez horas por dia para trabalhar: duas para escrever o texto e o resto para cortar os excessos.

(Horácio)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Villa

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Atrás
Bem mais
Natali se faz

Sem culpa
Lúcida
Embriaga as estrelas

Contorcendo o tédio
Ganha sempre
De virada

Todos
Na frente
Só querem te olhar

(Baobá)

domingo, 15 de novembro de 2009

Outros

meus outros
não pertencem
se estendem
outros são seus

essa é minha
dor
dos outros

risco o marco
pele e fato
invenção do esboço
rabiscos de outros
em mim
traço

quero mil
não paro
ninguém ao quadrado
todos
todos
minguados

outros com biscoitos
coitos
sozinho não falho

por acaso esse destino é meu
outros
meus outros
sempre dando adeus

(Baobá)

sábado, 14 de novembro de 2009

Poema em linha reta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Alvaro de Campos)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"Qualquer hesitação, seja diante de um golpe ou de um poema, pode ser fatal. Pensar pode ser fatal."

(Leminski)
A inocência dos que sonham
Dormidos do acordar
Fuzilam meu sono
Iludido sonhar

Nos jornais abro os olhos
Que nas folhas dobram
Tombadas na força
Dos dedos molhados

Boca suja

Realidade que o café
Finge limpar

(Baobá - 04/07)

nunca sei ao certo
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé

certezas o vento leva
só duvidas continuam em pé


(Leminski)

domingo, 8 de novembro de 2009

Antes de tacarem pedra

Antes de tacarem pedra no Caetano, pensem comigo: Lula sempre foi o maior beneficiário desse "preconceito". Aliás, é um "preconceito" que o presidente tem orgulho de sofrer, pois dá a ele status que nenhum outro político jamais teve: não precisa falar coisas com sentido, pode fingir que não sabia de um esquema de corrupção no seu governo, responder a uma pergunta com uma piada grosseira. Quem vai falar alguma coisa? Quem será o preconceituoso?Lula deve ter adorado a fala de Caetano.

(Game Over)

Votem nessa promissora fotógrafa!


(Tata)

sábado, 7 de novembro de 2009

Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

(Leminski)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Existe um “sub-eu” vagando na internet (Jabor)

Blogs, twitter, Orkut e outros buracos

Não estou no "twitter", não sei o que é o "twitter", jamais entrarei nesse terreno baldio e, incrivelmente, tenho 26 mil "seguidores" no "twitter". Quem me pôs lá? Quem foi o canalha que usou meu nome? Jamais saberei. Vivemos no poço escuro da web. Ou buscamos a exposição total para ser "celebridade" ou usamos esse anonimato irresponsável com o nome dos outros. Tem gente que fala para mim: "Faz um blog, faz um blog!" Logo eu, que já sou um blog vivo, tagarelando na TV, rádio e jornais... Jamais farei um blog, esse nome que parece um coaxar de sapo boi. Quero o passado. Quero o lápis na orelha do quitandeiro, quero o gato do armazém dormindo sobre o saco de batatas, quero o telefone preto, de disco, que não dá linha, em vez dos gemidinhos dos celulares incessantes.

Comunicar o quê? Ninguém tem nada a dizer. Olho as opiniões, as discussões "on line" e só vejo besteira, frases de 140 caracteres para nada dizer. Vivemos a grande invasão dos lugares-comuns, dos uivos de medíocres ecoando asnices para ocultar sua solidão deprimente.O que espanta é a velocidade da luz para a lentidão dos pensamentos, uma movimentação "em rede" para raciocínios lineares. A boa e velha burrice continua intocada, agora disfarçada pelo charme da rapidez. Antigamente, os burros eram humildes; se esgueiravam pelos cantos, ouvindo, amargurados, os inteligentes deitando falação. Agora não; é a revolução dos idiotas "on line".

Quero sossego, mas querem me expandir, esticar meus braços em tentáculos digitais, meus olhos no "Google" ("goggles" - olhos arregalados) em órbitas giratórias, querem que eu seja ubíquo, quando desejo caminhar na condição de pobre bicho bípede; não quero tudo saber, ao contrário, quero esquecer; sinto que estão criando desejos que não tenho, fomes que perdi. Estamos virando aparelhos; os homens andam como robôs, falam como microfones, ouvem como celulares, não sabemos se estamos com tesão ou se criam o tesão em nós. O Brasil está tonto, perdido entre tecnologias novas cercadas de miséria e estupidez por todos os lados. A tecnociência nos enfiou uma lógica produtiva de fábricas vivas, chips, pílulas para tudo, enquanto a barbárie mais vagabunda corre solta no país, balas perdidas, jaquetas e tênis roubados, com a falsa esquerda sendo pautada pela mais sinistra direita que já tivemos, com o Jucá e o Calheiros botando o Chávez no Mercosul para "talibanizar" de vez a América Latina. Temos de ‘funcionar’ - não de viver. Somos carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa. Assistimos a chacinas diárias do tráfico entre chips e "websites".

O leitor perguntará: "Por que esse ódio todo, bom Jabor?" Claro que acho a revolução digital a coisa mais importante dos séculos. Mas estou com raiva por causa dos textos apócrifos que continuam enfiando na internet com meu nome.

Já reclamei aqui desses textos, mas tenho de me repetir. Todo dia surge uma nova besteira, com dezenas de emails me elogiando pelo que eu "não" fiz. Vou indo pela rua e três senhoras me abordam: "Teu artigo na internet é genial! Principalmente quando você escreve: ‘As mulheres são tão cheirosinhas; elas fazem biquinho e deitam no teu ombro...’ "Não fui eu...", respondo. Elas não ouvem e continuam: "Modéstia sua! Finalmente alguém diz a verdade sobre as mulheres! Mandei isso para mil amigas! Adoraram aquela parte: ‘Tenho horror à mulher perfeitinha. Acho ótimo celulite...’" Repito que não é meu, mas elas (em geral barangas) replicam: "Ah... É teu melhor texto..." - e vão embora, rebolando, felizes.

Sei que a internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um "antispam" para bobagens.

Vejam mais o que "eu" escrevi: "As mulheres de hoje lutam para ser magrinhas. Elas têm horror de qualquer carninha saindo da calça de cintura tão baixa que o cós acaba!..." Luto dia e noite contra cacófatos e jamais escreveria "cós acaba!" Mas, para todos os efeitos, fui eu. Na internet, eu sou amado como uma besta quadrada, um forte asno... (dirão meus inimigos: "Finalmente, ele se encontrou...")

Vejam as banalidades que me atribuem:

"Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!"

Ou: "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!"

Ainda sobre a mulher: "São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades".

Há um texto bem gay sobre os gaúchos, há mais de um ano. Fui "eu", a mula virtual, quem escreveu tudo isso. E não adianta desmentir.

Esta semana, descobri mais. Há um texto rolando (e sendo elogiado) sobre "ninguém ama uma pessoa pelas qualidades que ela tem" ou outro em que louvo a estupidez, chamado "Seja Idiota!"...

Mas o pior são artigos escritos por inimigos covardes para me sujar.

Há um texto de extrema direita, boçal, xingando os brasileiros, onde há coisas como: "Brasileiro é babaca. Elege para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari. Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. Brasileiro é vagabundo por excelência. Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de R$ 90 mensais para não fazer nada não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo. Noventa por cento de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como ‘aviãozinho’ do tráfico para ganhar uma grana legal. Se a maioria da favela fosse honesta, já teriam existido condições de se tocar os bandidos de lá para fora... O brasileiro merece! É igual a mulher de malandro - gosta de apanhar..."

E o pior é que muita gente me cumprimenta pela "coragem" de ter escrito essa sordidez.Ou seja: admiram-me pelo que eu teria de pior; sou amado pelo que não escrevi.

Na internet, eu sou machista, gay, idiota, corno e fascista.

É bonito isso?
(Arnando Jabor - eu espero que seja)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Dei grandes passos com ele!


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Friducha


domingo, 1 de novembro de 2009

Doces lábios de Maçã

Falar a esmo não te causas arrepios
pois sei que mesmo no calor ou no frio
careces de aconchego e consolo
palavras curtas que expressem o que um tolo
pensa quando lhe sopra em assobio

Se estás perto, desejo conter teu calor
nos limites das minhas digitais
De relance, meus olhos lhe cobrem de sinais
no seio de teu aveludado langor
feito fruta fresca em que respiro tua cor
e num cruzar de pernas me convidaste a querer mais

De um abraço, quero cheiro de perfume
furtado das curvas de teu pescoço
enchendo meus pulmões de instintos
e soprando em tua boca meu esboço
Eis que percebo teus olhos famintos
que intimidam minhas pálpebras, de costume
É num segundo de êxtase distinto
que meu corpo faz-se pleno alvoroço

Entre as frutas és uma maçã cultivada
exalando o desejo de ser logo colhida
por mãos agraciadas que levarão à boca
o ventre carnudo de cor rosada
dos lábios mais doces que há nesta vida.

Lábios estes que derramam-me
seu néctardosando o gosto do pecado em meu paladar
Uva e vulva, ambas a revelar
a tessitura da natureza que descrevo com excitação
superfície delicada que desperta voliçãoA
quem queira, por completo, sua dádiva confiar


(Rodrigo Vianna - 04-07-09)

A menina dança




E dentro da menina
A menina dança
E se você fecha o olho
A menina ainda dança
Dentro da menina
Ainda dança

(Novos Baianos - Galvão; Moraes Moreira)


(Felipe Borba)

domingo, 25 de outubro de 2009

Atrás estão nossas vidas em dias cinzentos, sorrisos combinando com vestidos, miragens.

Atrás estão nossas vontades, vantagens, desanimo, vingança.

Atrás, lá no fundo, estão as aventuras de fim de tarde, a manhã sossegada e a agonia de agora.

Atrás o vento suga, instaura as promessas enviadas aos santos sambistas, chaqualhando em esquinas a perder de vista.

Atrás do barulho que já passou. Sinto o doer do peito.

Estão todos atrás. E eu não corro.

Na frente não vejo nada. E isso é tudo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Minha imaginação é a única que me entende


terça-feira, 20 de outubro de 2009

Hoje ouvi sua voz no quarto ao lado
Acudiu um sonho estranho

Fraquejo em bocejos
E falsos cansaços

Roncando dialogo
Com fantasmas famintos

Durmo
Na lembrança
Levantando com promessas
E mais sono

E um novo dia me rende


(Baobá)
"Rien de plus original, rien de plus soi que de se nourrir des autres. Mais el faut les digérer. Le lion est fait de mouton assimilé."


"Nada há mais original, nada mais intrínseco a si que se alimentar dos outros. É preciso, porém, digeri-lo. O leão é feito de carneiros assimilados."


(Paul Valéry)